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Crimes de Colarinho branco

Expressão cunhada por Edwin Sutherland, e apresentada em seu discurso de posse na presidência da American Sociological Association, em 1939, para quem aqueles são os “crimes praticados por pessoa de respeitabilidade e status elevado, em razão de sua ocupação; um criminoso com elevado status socioeconômico que descumpre a lei que regula suas atividades profissionais”. Desde então, o conceito tem recebido críticas e sofrido evoluções, embora, na essência, continue a representar aquilo imaginado por Sutherland: crimes de natureza profissional, praticados por pessoas influentes.

  O CONSUMIDOR É O CULPADO PELAS FRAUDES NA INTERNET 


Categoria: Delitos Cibernéticos e Cybercrimes | Postado por José Augusto Peres Filho | em 24/9/2009 11:36:32

No primeiro dia da VI Conferência Internacional de Perícias em Crimes Cibernéticos em Natal, foi proferida uma palestra que deixou-me cabreiro.
Sob o título “Fraudes no Sistema Financeiro”, foi proferida pelo senhor César Faustino, empregado do Itaú-Unibanco, em nome da Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN.
Em certa altura de sua fala, o senhor Faustino afirmou que os culpados pelas freaudes praticadas via Internet são os consumidores que usam a rede mundial de computadores para fazer suas transações bancárias.
Minha reação, de imediato, foi a revolta, a indignação.
Ora, o consumidor que está em casa, é bombardeado dia e noite pela publicidade dos bancos alardeando as maravilhas que lhe são oferecidas com as transações via Internet, afinal de contas, segundo o que dizem os anúncios, o consumidor será tratado de maneira personalizada, não vai enfrentar aquelas filas imensas características dos bancos, não ficará horas no trânsito, não se preocupará com estacionamento e, principalmente, as transações são seguras!
Agora, vem um sujeito, especialista em segurança na Internet, dizer que o tal consumidor é o culpado pelas fraudes aplicadas e promovidas pelo meio cibernético no sistema bancário.
O número de usuários brasileiros da Internet tem crescido rapidamente. A cada dia, mais gente vem passando pelo processo de “inclusão digital”. Hoje somos milhões e nem todos têm a experiência e o conhecimento necessários para se livrar de todas as armadilhas digitais que são lançadas diariamente aos milhares por criminosos de todo o planeta, sempre com uma complexidade crescente.
Pensemos em uma senhora idosa, de nome Catarina, cansada de sofrer nas filas de banco, que mesmo no “atendimento preferencial” são extremamente lentas, sobretudo se na frente estiver um office senior (aqueles idosos aposentados que fazem serviço de office boy para empresas justamente porque têm atendimento na fila preferencial). Vencendo todas as resistências que a avançada idade lhe impõe quando se trata de novas tecnologias, aquela senhora resolve aprender a lidar com computador e Internet, porque já não suporta as filas de banco.
Tudo caminha bem, embora com as dificuldades peculiares à novidade. Dona Catarina está encantada. Isto é uma maravilha, exclama a cada transação efetivada.
Até que um dia ela recebe um e-mail, como se fosse do banco onde tem conta, informando que foi feito um depósito em sua conta corrente. Como estava esperando que um filho lhe devolvesse um dinheiro que lhe tinha emprestado, ela clica na mensagem que, no final diz que para verificar o valor depositado, ela deve clicar no caminho que está assinalado. E ela o faz.
Assim começa o calvário de Dona Catarina, pois ao invés de entrar no site do banco, ela é direcionada para uma página dos fraudadores, que simulando uma simples transação bancária, se apoderam de suas senhas e minutos depois, fazem um “rapa” na conta corrente, nos depósitos em poupança, contraem um elevado empréstimo e sacam o dinheiro.
Ela só vai tomar conhecimento dias depois, quando tem um cheque devolvido por insuficiência de fundos. Logo ela, que sempre agiu com toda a correção possível em sua longa existência.
Ainda bem que dona Catarina não estava na palestra de seu César. Teria enfartado, certamente, ao saber que ela é a culpada por ter sido roubada por alguém que se fez passar pelo banco onde tem conta corrente.
Pensando melhor, no entanto, o palestrante tem certa razão. Alguma culpa tem o consumidor.
Ele é culpado por não conhecer bem a Internet, esse ambiente novo, misterioso e perigoso, mas para o qual insiste em ir. Tamém é culpado o consumidor por atender aos reclames publicitários dos bancos, por votar em políticos que não estão nem um pouco preocupados em coibir os crimes cibernéticos (há dez anos tramita no Congresso Nacional projeto de lei criando “novas” figuras criminais). É culpado por morar em um país onde os juros bancários estão entre os mais elevados do mundo, onde governantes inescrupulosos são eleitos com doações de empresas ainda menos escrupulosas que estes, onde os bancos cobram inúmeras e inexplicáveis taxas, onde a impunidade por todo tipo de crime e violência, seja contra a pessoal ou o seu bolso, é a regra. O consumidor é culpado por tentar se livrar das filas dos bancos que, mesmo obrigados por lei a reduzirem o tempo de permanência nessas a 30 ou 40 minutos, fazem vista grossa e ignoram solenemente os dispositivos legais (impunemente).
Um ditado espanhol diz que “nada es verdad, nada es mentira. Todo cambia según el color del cristal con que se mira”.
E é realmente assim. Aos olhos dos bancos e seus empregados, cobertos pelas lentes cor-de-rosa dos mais altos juros e lucros do mundo, nós consumidores somos os culpados. Mais: somos os otários do sistema.
Estava até certo ponto correto o senhor César.
Faltou distribuir com a platéia o nariz de palhaço, ou quem sabe, em breve não comecem os bancos a distribuir o simpático nariz de bola vermelho com os clientes que abrirem contas novas e comecem a usar a Internet.


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