HOTELZINHO - Um hotel muito ruim, na Cidade Maravilhosa
A culpa foi minha. Toda e inteiramente minha. Só minha.
Estava ocupado demais quando a minha irmã enviou-me o e-mail com a lista de hotéis dentre os quais eu escolheria onde passar três noites, já no final das férias. Depois de Santiago do Chile, São Paulo e Campos do Jordão, antes de ir para Vitória.
Não queria nada caro, pois já teria gasto bastante nos destinos anteriores.
Na lista não estava um que pedi para ela pesquisar e no qual já me hospedara outras duas vezes.
Aí reside minha maior culpa. A de não ter insistido no pequenino hotel da rede Windsor em Copacabana.
Sugeriu-me o Othon Classic. Também em Copacabana. À beira mar, quase esquina com a Rua Santa Clara. Ela, minha irmã, tinha se hospedado lá por mais de uma vez.
Confiei. Arrependi-me. Motivos? Muitos.
Chegamos, Priscilla e eu, em um sábado de agosto, às dez da noite.
Muitas malas, por conta do frio esperado em São Paulo e experimentado em Campos do Jordão. Além das compras, é claro.
Pra começo de conversa, não tinha carregador. À noite só havia um que estaria ocupado, segundo informou o pouco (ou nada) simpático recepcionista. Aliás, a antipatia deve ser requisito exigido na seleção do pessoal que trabalha lá no hotelzinho.
Com certo esforço, colocamos as bagagens no único elevador em funcionamento, já que o hotelzinho estava em reforma e o outro elevador estava interditado.
Nem preciso falar de quanto tempo era a demora para subir ou descer, a qualquer horário.
Não soubesse eu que o primeiro hotel construído naquela praia fora o Copacabana Palace, pensaria que o hotelzinho tinha sido o pioneiro. Não foi, eu sei. Mas não terá sido o segundo?
Por falar em segundo, é fácil imaginar que Pedro, o Primeiro, poderia muito bem ter usado os móveis que guarnecem o hotelzinho. Principalmente o colchão da cama do quarto em que nos instalaram.
Cansados da viagem, pois tínhamos saído de Campos do Jordão cerca de doze horas antes, passando por São Paulo, fomos tomar banho.
Não havia água!
Isso mesmo. Estava faltando água no hotelzinho.
Ligo para a portaria e sou informado que “o rapaz da manutenção” já estava a caminho, “de táxi”, para resolver o problema. Ainda bem. Imaginem se estivesse vindo de ônibus, charrete ou lombo de burro; estes últimos meios, bem mais adequados às condições oferecidas pelo hotelzinho aos “estimados hóspedes”.
Cerca de uma hora depois, pudemos, finalmente, tomar banho e sair para jantar, afinal de contas, no dia seguinte poderíamos voltar a passear na Cidade Maravilhosa.
Domingo pela manhã, por volta das nove horas. Postados em frente do único elevador em funcionamento, esperamos uma eternidade para irmos ao café. Não era conveniente descer os oito andares pelas escadas.
Chegamos ao restaurante. Lotado.
Priscila pegou a única mesa vaga, enquanto eu fui nos servir. Ou tentar.
Além de lugar para sentar, faltava café, leite, faca, ovos, prato, xícara e outros itens menos cotados. Quando chegava algo, era em quantidade mínima, logo esgotada novamente por hóspedes famintos.
E assim, entre o desabastecimento no café da manhã, as demoras do elevador, o barulho insuportável dos trabalhos de reforma (que começavam bem cedo) e o colchão dos tempos de D. Pedro I, passamos as três noites no hotelzinho.
Como nosso vôo com destino a Vitória sairia às 15:30 horas, no último dia liguei para a recepção para pedir um “late check out” para as 13:30 horas, já que uma educada plaquinha no balcão informava que as diárias iniciavam às 15 horas e terminavam às 12. Era um peculiar caso de diária de vinte e uma horas. Deve ser porque o dia passa rápido quando se é tão bem tratado como no hotelzinho.
Ao telefone, a antipática atendente (lembram do requisito da seleção? Tinha sido mais uma vez rigorosamente cumprido) respondeu que só liberava até as 13 horas. Mais um minuto e me cobraria meia diária de acréscimo. Agradeci e, em silêncio como quem ora, maldisse o tal do Othon, seus descendentes, seus antepassados, seus empregados passados, presentes e futuros, além de prometer a mim mesmo que nunca mais me hospedaria em nenhum hotelzinho da rede.
E para não dizer que nada prestava no hotelzinho, faço as ressalvas.
Uma para a localização, da qual já falei. Outra, para o papel higiênico.
Nem o lá de casa é tão macio. Além do talquinho que mamãe passava quando eu era bebê, nada tão suave chegou ao meu traseiro.
Mas isso é mais do que justo.
Para um hotelzinho de merda, dão um papel higiênico de primeira categoria.
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P.S. Esta crônica, embora publicada agora, foi escrita no início de setembro deste ano. Após digitá-la, a pedido dela, entreguei uma cópia à minha irmã Rita, que é agente de viagens e iria ao Rio para o congresso anual da Associação Brasileira de Agências de Viagens. O objetivo dela era entregá-la ao gerente do hotelzinho, onde se hospedaria, por já ter reservado apartamento há vários meses.
Bem, ao chegarem, ela e a sócia, ao hotelzinho, não encontraram a reserva feita e confirmada meses atrás. Nenhuma surpresa.
Pediram para falar com o gerente do hotelzinho e foram informadas que o gerente geral não ficava lá. Nenhuma surpresa.
Diante disso, pediram para falar com a gerente de reservas. Estava muito ocupada para atendê-las. Nenhuma surpresa.
Finalmente, foram acomodadas em um apartamento. Nenhuma surpresa. A quarta.
Continua funcionando apenas um elevador, o que mantém longa a espera dos hóspedes. Sem surpresas, portanto.
Embora pareça que nada mudou no hotelzinho, fui informado de algo que, isso sim, me surpreendeu. Mudaram o papel higiênico do hotelzinho. Para pior.
Agora só resta de bom a localização. Mas continuam faturando alto, graças a incautos como eu e minha irmã.
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